09/09/2007

Deus Tirou Férias.

Cristo está na Polinésia Francesa. É verdade! A igreja não pára de me surpreender. A minha avó, devota cristã, pôs-me hoje a par de uma situação um tanto ou quanto caricata: está bem que estamos em Setembro, e até que estão uns dias quentes, mas daí à igreja fechar para férias, francamente!

Imagine-se só! Está ali um praticante com um pecado ou dois entalado da goela, a ser massacrado com a sua consciencia celestina, e o senhor Prior a bronzear-se do pescoço para baixo algures na Praia dos Tomates. Andam as beatas e as velhinhas a contribuir com tanta dedicaçao nas esmolas para pagar uma semana num Resort de luxo a cada um dos acólitos! E pronto, ao fim de duas semanas lá volta o Senhor Padre à paróquia com uma tez bem mais bronzeada.

Digam-me lá, vá, quem é que distribui o corpo de Cristo para nos salvar do mal? Ah espera, se calhar puseram um doseador de hóstias à porta, daqueles com um Insert Coin, como fazem com os preservativos quando as farmácias não estão de serviço!

E a água benta, quem é que a benze? Fica lá a apodrecer na Pia Baptismal, a criar colónias de fungos e bactérias?

Será que quando o Clero tira férias de Deus, trocam o hábito por camisas com motivos florais e sungas malandras? Que é como quem diz, que aproveitam e têm duas semanas de puro pecado e sacrilégio? Já imagino o sacerdote rodeado de bifas e a benze-las de alto a baixo.

Logo hoje que eu nem me importava de ler o envagelho...

28/08/2007

Seja Feito Feriado

Vou instituir a partir de hoje, para todos os meus fiéis seguidores e devotos, dia 26 como dia Santo, e como tal deve ser celebrado a cada mês com alegria e fulgor. Tem-se revelado bastante próspero a diversos níveis. Deram-me uma licensa para matar em 4 rodas, peça fundamental para poder concretizar todos os meus planos malvados; encontrei um Jeremias perfeito para dar caldos e belinhas sem justificação aparente; e por fim, a razão da minha cozinha estar forrada a papéis de jornal e de acordar as 7 da manhã – não, não são obras nem infiltrações, comprei foi um cão. Com pipi.

Graças a qualquer coisa! Desde criança que sonhava com um canídeo para me aquecer os pés de noite e para eu descarregar pontuais surtos de afecto. Finalmente alguém ouviu as minhas preces e eis que surge uma bola de pêlo andante para me salvar das Trevas!
Pesa 700 gramas, anda neste mundo a lançar charme há 3 meses humanos, parece uma raposa mas diz que é cadela. Se bem que há uma protuberância curiosa na zona pélvica, que eu rezo para que seja algo semelhante a restos de cordão umbilical ou assim, porque há já dois dias que lhe ando a chamar Fiona e dorme numa alcofa cor-de-rosa. Eu pessoalmente se fosse rapaz não gostava.

É quase bípede, a avaliar pelo tempo que passa nas duas patas traseiras. Uma pequena fera, temperamento arisco mas carinhoso, dona do seu focinho e dos demais, está agora sentada ao meu colo gratuitamente! Faz mijinhas do tamanho de uma moeda, que ela deve achar algures no seu intelecto que ficam muito bem com a carpete da sala! A minha mãe não estava nada convencida, mas já a apanhei em flagrante delito, agarrada a ela e a grunhir algo como “bilu bilu cutxi cutxi” que nem eu que estou toda apaixonada me dou à coragem de proferir.

É um Lulu da Pomerânia, na gíria, um ratinho com Pedigree! Eu não gostava muito de cães de bolso, mas esta raposa derreteu-me! Não ladra, e terá eternamente ar de cachorro! Já me imagino qual Paris Hilton, passeando nas ruas da Baixa vestida de cor-de-rosa- “Cheguei”, com a sua cabecinha felpuda a sair da pochete e opinando sobre os modelitos das montras. Ok chega de dispersão fútil e inútil.

Não pensem que é um mero animal de companhia! Tem muitas outras funcionalidades! Para além de me instituir algum sentimento maternal e de responsabilidade, é um excelente cão de guarda, bem feroz e medonho! Os caninos dela trespaçam qualquer bolacha maria que se lhe atravesse à frente! Por isso aposto que com os pulos que ela dá, qualquer escroto de um bandido é rosbife para ela. Serve também de espanador para cantos difíceis, e em caso de miséria renderá certamente uns bons trocos no circo ou a segurar copinhos no meu ombro enquanto eu toco concertina na Linha Azul do Metro de Lisboa.

Teve uma história atribulada. Basicamente comprei-a em saldos! Ou coisa que o valha. Já há algum tempo que a andava a engatar na montra da loja do Centro Comercial. Sempre a morder as caudas dos primos, e a saltar de cubículo para cubículo. Mas pediam muitos Euros por aquele nico de bicho. Na ordem das 6 centenas de tustos! E eu tábem. Nisto desatei a ligar a criadores da raça, na esperança de encontrar bichinhos igualmente apetitosos mas com valores bem mais modestos. Só consegui falar para um, que pedia metade do preço. Aí já me soou melhor. Mas ainda assim, não era Aquela que eu tinha embeiçado. Mas pronto, 300 Euros ainda dá para muitos Martinis, lá engoli em seco e perguntei onde poderia ver os cachorros. Ao que do outro lado da linha, o indivíduo me responde em tom de secretismo: “Olhe, eu não os tenho agora comigo, mas passe discretamente pela loja de animais do Fonte Nova”. Ora o Fonte Nova não é grande, e só uma das lojas é que cheira a pássaros. Juntanto dois mais dois, noves fora, eu diria que a loja era a mesma. Não é que neste raio de país piqueno, o criador que eu fui ligar, era precisamente o criador dos cães que estavam em exposição na loja? Ele foi lá buscá-la e vendeu-nos ao preço de fábrica. PIÇADA NA LOJA, TOMA E EMBRULHA!

Sempre disse que o Poder Divino ainda me iria vir a dar jeito!


27/07/2007

Glossário de Algibeira

Estrelas-cadentes: Beatas que Deus manda para o ar quando não tem um cinzeiro à mão.

Corolário nº1: Deus Fuma.
Corolário nº2: Deus vai ter morte lenta e dolorosa.




2-0*

24/07/2007

Vox Pop

O povo português não pára de me surpreender. Até lacrimejo!

Hoje, ia eu de bem com a vida a entrar numa loja de sapatos ali para os lados da Charneca, quando presenceio um momento de glória popular:

Cliente (senhora de aparência rural a avaliar pelas unhas maltratadas, pornúncia singular, odor intenso e bigode farto) :
- Olhe ó menina eu queria um par de sapatos, saixabore.

Empregada: Muito bem. Então e para que é que procura os sapatos, exactamente?

Cliente: Olhe eram assim para andar!


...


(pausa de reflexão)

Ora desta é que eu não estava a espera! Sapatos para andar? E eu que sempre julguei que fossem para usar como brincos ou para guardar as moedas pretas ao fim do dia. Ou para suportar velas ou pousar a colher de pau!

Agora para andar?!
Francamente. Ele há com cada uma...

23/07/2007

4º Mistério - O d'A Praia

Julho, Verão, férias (para os mais afortunados), sol em quantidade, roupa em raridade, bronze em prioridade, e numa regra de três simples, assim como todos os caminhos estão para Roma, todos os dias estão para a praia.

E durante as muitas sessões de solário natural às quais me entrego de alma e coração sob juramento de fidelidade, qual réptil de sangue frio, tenho de entreter o raciocínio com alguma coisa para me assegurar de que ele não derrete ou me sai pelos poros na forma de vapor. Mas nem preciso de me esforçar muito, geralmente o caricato vem me parar as mãos por mero acaso, não sei bem porquê.

Em primeiro lugar, gostaria de prestar tributo a todas as famílias numerosas, com um mínimo de duas cabeças de novilho bem sonantes, que calorosa e afávelmente, num raio de 500 metros de areia branca e livre, se vêm juntar de trouxa e bagagem, esteira e tupperware, ao pedacinho de tranquilidade por nós escolhido a dedo. Eu que seleciono sempre aquele lugarzinho ao sol, com um máximo de 10 cabeças por hectare, não demasiado longe da água para não queimar os pés, nem demasiado perto para não jogar o meu mp3 corrente fora quando a maré se vem, com poucos pauzinhos e urtigas para não picar e com vista sobre o nadador salvador e os seus tostadinhos peitorais. Mas para quebrar todo este cenário paradisiaco, há sempre uns inquilinos mal-vindos e mal-cheirosos, com crianças nuas e pataniscas de bacalhau num tupperware, que os malcriadões nem oferecem como cortesia de vizinhos com que os filmes americanos nos mimaram. Às vezes ainda têm o mau-carácter de se irem banhar em conjunto e pedir para dar um olhinho nas coisas. Já por muitas vezes me passaram pela cabeça pensamentos diabólicos como escrever mensagens hostis e em hebraico no quebra-vento e vandalizar as cadeiras de lona, para que saibam que não são benvindos naquela terra. E de caminho roubar uma patanisca.

Outra curiosidade que me intriga bastante, é que na praia toda a conversa se ouve. Aliás, desconfio que é nas praias que nascem os boatos e as más línguas!

Sem esquecer a mediática obra do destino que nos presegue a todos e às nossas toalhas, que no compasso de tempo entre estender o trapo e embrulhar o traseiro nele, lança sempre uma quantidade simbólica de grãozinhos de areia para decorar o estaminé.

Um momento.

Bem, adorava continuar aqui à conversa porque esta é sem dúvida uma temática com pano para mangas, mas vem aí um meteoro e o mundo precisa de mim que já o oiço chamar! Até mais!

To Be Continued....

14/06/2007

Bloco de Notas

Tema: Festividades inerentes aos Santos Populares

"Santo António já se acabou, o São Pedro está se acabar, São João, São João, São João, dá cá um balão para eu brincaaar! "

Se a minha infância alfacinha serviu para alguma coisa, acho que a música é assim!

Ora, a propósito deste mês tipicamente bem disposto e bairrista, com cheiro a sardinhas e sabores tradicionais, venho deixar aqui umas breves observações (feitas por mim numa profissionalíssima experiência de campo) para consulta pública dos mais audazes adeptos dos arraiais e devotos de Suas Santidades.

Bom Apetite!


Apontamento número 1: Nunca, jamais, em tempo algum (e todo o tipo de advérbios de tempo de igual significado) levar socas, chinelos, 'havaianas' ou qualquer outro género de calçado aberto para as imediações do Castelo, Rossio, Alfama, Graça, Bairro Alto e todos os outros potenciais núcleos de gente alcoolicamente aconchegada, em grande número e temporária e compreensívelmente sem grande noção de civismo.


Apontamento número 2: Nunca tentar alcançar o Castelo por maior que seja a vossa boa vontade. É uma traiçoeira armadilha: por questões de segurança, motins de gente dificultam o acesso, mas para os mais corajosos que ainda assim conseguem alcançar o seu destino, quando no alto das masmorras parece subitamente que se abrem fossos gigantes a toda a volta debruados a arame farpado e cheios de crocodilos e piranhas. Basicamente se chegarem lá, tão depressa de lá não saem! Poucos sobrevivem para contar a história.
Apontamento número 2, alínea a) Se porventura decidirem ignorar o apontamento número dois e ousar partir à conquista, preferir os caminhos alternativos disponíveis, tais como: Ruelas, Ruas estreitas sem iluminação, crowd surfing, escadarias vertiginosas, sargetas, andaimes e estendais. Evitar portanto áreas cuja concentração de pessoas seja superior a 5 cabeças por metro quadrado de calçada.


Apontamento número 3: Defecar previamente e em território próprio, todo o tipo de detritos fisiológicos que possam vir a representar embaraço ou ameaça. Dificilmente se encontrará estabelecimentos com sanitários operacionais e cujo tempo de espera não supere a capacidade máxima física de aguentar e armazenar a matéria fecal no respectivo orgão excretor destinado ao efeito.
Apontamento número 3, alínea a) Se por causa natural ou induzida se tornar imperativo defecar em campo, procurar estabelecimentos de ar sombrio e sinistro pouco movimentados, e ignorar todos os possíveis índices de criminalidade que possam aparentar. Em caso de pânico, usar cantos de monumentos nacionais - para eles, e espaços entre carros estacionados ou canteiros - para elas (em circunstância de inibição, pedir aos demais uma rodinha à volta e um "shhh" em coro e numa só voz.
Apontamento número 3, alínea b) Levar uma módica quantia de parte para os rabinhos mais requintados que preferirem utilizar os sanitários de uma qualquer propriedade privada e desconhecida, temporáriamente aberta ao público, ignorando todos os príncipios pelos nossos pais ensinados, tais como "nunca entres em casa de estranhos".


Apontamento número 4: Levar uma pacote de lenços de papel perfumados ou não, e/ou clinex's para limpar qualquer tipo de sujidades pontuais, tais como: vómito próprio e/ou alheio, sangria, ginja ou outra bebida própria e/ou alheia, cuspo alheio (não creio que algúem cuspa para o ar só para testar a validade do provérbio português), e todo o tipo de substâncias que representem uma ameaça para a higiene mínima de cada um. Considerar igualmente a prevenção com uma muda de roupa.


Apontamento número 5: Ter especial atenção a ocasionais surtos de arremesso de objectos, tais como garrafas, latas, copos de plástico, sardinhas, pão, bifanas, sapatos, pessoas, animais domésticos e Cocktails Molotoff. Se necessário proteger a cabeça e rezar numa das 3 religiões à escolha: Islamismo, Cristianismo ou Judaísmo.


Apontamento número 6: Procurar evitar áreas com grande quantidade de garrafas partidas ou detioradas, principalmente quando desrespeitado o apontamento número 1.


Apontamento número 7: Possuir uma, duas ou mais pastilhas de Gurosan ou Alka-Seltzer prontas a consumir e/ou partilhar. À venda nas farmácias e sem necessidade de prescrição médica.


Apontamento número 8: Em caso de se considerar a si e aos seus, pessoas facilmente seduzidas por álcool ou substâncias psicotrópicas, munir-se previamente de coleira ou chip identificadores.


Apontamento número 9: Levar trapos velhos, cabelo oleoso e desgrunhado e pintura tribal a fim de reduzir em massa os assédios. Esboçar caretas medonhas também potencializa o sucesso nesta matéria.


Apontamento número 10: Levar consigo máquina fotográfica antiga (quanto maior e mais se assemelhar com um tijolo, melhor) para que possa evitar danos a longo prazo e simultâneamente gravar os momentos memoráveis e usá-la como arma.


Apontamento número 11: Providenciar meios de comunicação eficazes e alternos ao inútil telemóvel, tais como: Megafones, telefones de copos com fio extensível até uma distância de 50 metros, tapetes para sinais de fumo, pombos correio e aviõezinhos de papel.


Apontamento número 12: Planificar antecipadamente a forma de regresso, e se necessário fazer uma vaquinha e alugar um motorista, ou munir-se de patins, trotinetas, bicicletas, burricos ou outros veículos de tracção animal. Levar agasalhos e calçado confortável para uma cómoda peregrinação até à praça de táxis vazia mais próxima, local esse que pode variar entre a Avenida da Liberdade e Campo de Ourique.



Penso que com este Kit de sobrevivência todos poderão disfrutar dos Santos Populares em condições!


Antenciosamente, Santa Fá.

22/05/2007

3º Mistério - O d'O Espelho

“Espelho mágico, espelho meu, existe alguem mais belo do que eu?

-Ya.

Era uma pergunta retórica, imbecil.

-Então porque é que perguntaste?”



Porque confiante e convencido são dois adjectivos diferentes. Um convencido dá enfase ao que ele quer que as pessoas admirem nele, o que muitas vezes elas nem sequer reparariam por si mesmas. Um convencido precisa de legendas. Um confiante tem imagem. Os que não são cegos que vejam à sua maneira, para ele tanto se lhe deu se o acham policromático ou transparente. Ele tem os negativos consigo.

O convencido procura a confirmaçao numa só voz de que ele é Hossana nas Alturas, ele é rouco e não consegue garantir isso a si mesmo. Pode até ser tudo o que deseja, mas está mais preocupado em ver as caras dos outros a admirá-lo do que virar os olhos para dentro.

O confiante sabe que tem falhas, tenta viver bem com elas. O convencido quer ser perfeito, quer ser o brinquedo mais brilhante da montra. Mas que ninguém desconfie! No fundo ele quer parecer naturalmente reluzente, ai de quem sonhe as vezes que cuspiu para o próprio braço para depois lhe dar lustre. Um convencido segue atalhos e caminhos alternos para dizer que ops! Vejam só: eu sei dizer alterno! Ele nega a sua qualidade de convencido como um judeu as suas origens em terra de ariano. Não admira, em terra de gente hipócrita, ser convencido é mau. E convencido que se preze é perfeito, qual Narciso contemporâneo.

O confiante chega a fazer-se descaradamente de convencido. Diz que é bom num minuto e diz que e merda no outro. É que ele sabe mais ou menos o que a sua casa gasta. O convencido tem uma tendência natural para o consumo compulsivo de qualidades que às vezes não digere bem.

Podia enumerar mais uma série de definições para um e para outro, mas a verdade é que no fim a linha que os separa é bastante ténue, somos confiantes até errar. Somos convencidos para corrigir os nossos erros.

Toda a gente tem um calcanhar de Aquiles. A Cindy Crawford também caga. E o Super-homem morreu à fome porque não sabia cozinhar.

02/05/2007

2º Mistério - O d'O Bombástico

Colegas de Recreio:

Gostava de partilhar aqui com vocês uma pequena reflexão sobre um pormenor que não pude deixar passar na minha condição de instruanda atenta e dedicada do código da estrada.

Estava eu em mais uma penosa hora cheia de regras, contra-ordenações, rotundas, biforcações, entroncamentos, enforcamentos, etc., empenhada em tentar lutar contra a força da natureza que me prendia ao sono e que eu afastava de 5 em 5 segundos em compasso binário no sobressalto de quem tem vergonha do cansaço (e da boca semiaberta que algum bocejo de rabo grande faz sempre questão de deixar para trás).

Nisto, entre os meus sonhos formato curta-metragem que o tempo de antena das circunstâncias apenas permitiam, houve uma palavrinha que de alguma forma ressoou no meu ouvido em ponto morto: "Explosivos".

O meu sentido de sobrevivência (ou o meu sentido satírico, que na volta são um só) trouxe-me imediatamente ao mundo dos presentes de espírito rasgando o ritmo monótono da minha cabeça.

O instrutor acabara de fazer a seguinte pergunta de teste: " O sinal A6 (projecção de gravilha) representa: A- Pavimento escorregadio; B- Risco de projecção de gravilha; C- Transporte de explosivos? "

E eu pronto, lá atirei do fundo do meu anonimato adormecido "C !!" no meu habitual tom de gozo. Depois de uns quantos risos, talvez forçados, talvez pela minha ressurreição triunfal, a aula lá retomou o seu ritmo normal. Menos eu. Eu, movida pela temática aliciante da pergunta anterior, comecei logo a desviar-me sorrateiramente do rumo que era suposto, deliciando-me com as várias interpretações que aquela alínea oferecia . Mas depois de divagar por um ou outro caminho alternativo, lá me conformei que talvez fosse apenas um espirro de creatividade por parte do autor dos testes.

A aula prosseguia não mais interessante, mas com um pouco de mais atenção da minha parte (uma vez acordado o monstro, so resta rezar ), escondida atrás das perguntas pertinentes dos meus colegas, sorrateiramente e pacientemente em pose de predadora à espera de apenas mais uma presa, mais uma frase dúbia que me saciasse o sarcasmo.

E não é que para meu espanto e surpresa, surge novamente uma pergunta:
A placa modelo nº1 deve ser colocada em veículos que: A- Sejam veículos de transporte público de passageiros; B- Tenham um peso bruto de mais de 3500 kg; C- Transportem explosivos?

... Eu gargalhei. Em solo, mas gargalhei, foi mais forte que eu. Acho que uma ou outra alma terá reparado no mesmo, porque vi um ou outro esboço de sorriso tímido entre as caras agnósticas do resto da turminha.

Bem, começo a achar que o autor destes testes apresenta sintomas de piromania.

MAS CALMA. Não satisfeito com isso, logo de seguida veio outra pergunta que já não me recordo ao certo porque ainda estava a tropeçar nas minhas gargalhadas e na ironia da situação, mas que tinha novamente explosivos a mistura.

Portanto concluo, ou Portugal é uma grande potência no mercado internacional de armas de fogo e eu não sabia, ou meus amigos, eu não sei o que é que os senhores da Direcção Geral de Viação e as suas mentes malvadas andam para aí a tramar, mas serei a única aqui a notar um certo padrão de informação duvidoso?


Convido-vos a dedicarem um pouco do vosso tempo a esta questão e estarei receptiva a novas hipóteses de interpretação.

Zelemos pela boa conduta deste país! Viva!

14/03/2007

1º Mistério - O d'O Trabalho

São 22.30. Tenho um trabalho para fazer. Tenho um texto para escrever. Tenho uma hora de aplicação pela frente. Tenho uma súbita dor óssea ao nível das mãos que me afecta as articulações dos dedos!

Suspiro.

Entretenho o raciocínio com distracções tentadoras, percorro uma série de alibis que me façam acreditar cegamente que a tarefa que tenho não é assim tão importante, para sair de fininho da sala de julgamento onde trabalha a minha consciência (ela sim, trabalha incondicionalmente. Com isto quero mesmo dizer ausência de condições).

Não quero com isto dizer que não goste do que tenho para fazer. Mas há outras coisas que gosto e que são tão mais simples que... um momento, tenho aqui um cigarro que não pode mesmo esperar!

Como eu estava a dizer, eu sei que o trabalho e o empenho são necessários para se ser bem sucedido e destacado. Mas são resultados a médio/longo prazo e o plágio, corrupção, contactos e atalhos também funcionam e todos ficam felizes. Excepto a minha consciência, mas ela entretém-se a trabalhar noutro lapso qualquer da minha postura.

Grande parte dos trabalhadores Portugueses padece desta maleita: preguiça – a antítese do trabalho. Não se esforça a 100% porque secalhar 70% chega, e em dias maus o 50% dá para o gasto. Confia-se na sorte, tal como se confia em lotarias para enriquecer. Toda a gente conhece a lei do menor esforço e é das poucas que ninguém se importa de cumprir.

Trabalho exige perseguir objectivos, exige dedicação, exige detalhe, exige atenção, exige insatisfação, exige exigência, exige presistência, exige prioridades, exige escolhas.

E ninguém pode exigir muito mais quando se trabalhou.

Como tal deixei o meu cigarro a meio e escrevi o meu trabalho, para que com tudo o que lutar subir na vida à minha custa, viver bem e não ter de fazer mais nada.

Os Mistérios

E porque a verdade e a saliva devem ser partilhadas por toda a gente, vou agora dedicar-me a essa causa e debater-me sobre assuntos para os quais formulamos inúmeras hipóteses que em vão se esfolam umas às outras para admitirem uma postura irrefutável.

Sim, também podia distribuir beijos a toda a gente, mas sofro de escorbuto .

Vamos chamar-lhes mistérios!

E por mistérios entenda-se (citando J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo in Dicionário da Língua Portuguesa - Porto Editora) "verdades dogmáticas ou questões Universais que a razão humana não pode compreender; tudo o que tem causa oculta ou que parece inexplicável. "

Enjoy your meal, ladys and gentlemen!

22/02/2007

Brevemente...

Caros leitores dedicados, assiduos e incondicinais, desculpem lá. Se faz favor.

Eu sei que nestes ultimos meses fiquei em falta para convosco, e que este blog caiu na merda, MAS

foi sem querer.

Já me puni bastante por castigo auto-proposto, e como tal espero a vossa compreensão e esqueçamos este pequeno espisódio, shall we?

Assim sendo volto em breve com novas drageias literárias de hortelã.pimenta para meu alívio e vosso lazer!

Beijinho, sim?

16/02/2007

Moribundamente Sociais

Ser, parecer



Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos


A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos

Mia Couto

________

Moribundamente sociais.

O ser humano desde que o é tem como necessidade a socialização. Desde os tempos mais primordiais, que o Homem se organiza em sociedades e comunidades, tal como a maioria dos animais o faz. O convívio com os seus similares transmite segurança, conforto e certezas. Certezas essas que são os alicerces da nossa construção pessoal e da construção do nosso próprio percurso. Na oposição, a solidão e a exclusão deixam-nos desamparados, perdidos e pouco confiantes.

Assim sendo, é-nos intrínsecamente natural procurarmos a aceitação dos outros para que também nos considerem na legitimidade de aceitar quem nos rodeia. De outra forma, a nossa opinião pouco interessava. Temos a necessidade de sermos ouvidos e identificados. É uma espécie de negócio implícito que fechamos todos os dias com todas as pessoas com quem nos relacionamos.

Para nos facilitar a vida, muitas vezes usamos as cábulas que a sociedade nos vai dando, moldamo-nos aos padrões que temos a certeza que pelo menos a maioria gosta. É tudo uma questão estatística. As nossas probabilidades de sermos aceites aumentam quando respeitamos a doutrina social que nos é pregada inconscientemente a cada dia que passa.
E assim, deixamos muitas vezes a nossa essência em stand by recorrendo ao modo standard no quotidiano.

É esta qualidade de actores que vestimos todos os dias. Acabamos por projectar algo entre o que somos e o que queremos mostrar aos espectadores.

Fazemos a nossa interpretação dos papeis escritos pela sociedade, cada qual ao seu jeito.

Já o dizia o Mia: “A vida (ensinaram-me assim) (...)” . Aquilo que sabemos e tomamos como verdades resulta do que nos ditam os que nos rodeiam.

Ora não será de estranhar então que aprendamos a ser aquilo que vemos serem os nossos ditadores.


(Esperando piamente que te tenha servido de qualquer coisa D.D. =D )

28/11/2006

Olho por Olho, Dente por Dente, Demente por Demente

Um olho à belenenses fica sempre bem! Dá aquele ar invejável de irreverente aventureiro que desafia punhos e cotovelos temíveis com uma bravura de bradar aos céus! Isto é o que deve vincar na cabeça das gentes de hoje em dia, que por compaixão ou benevolência desancam à batatada por um alfinete de dama, não vá o próximo ter problemas de auto-estima e integração social, e tal como as suas mentes geniais e engenhosas formulam, um olho à belenenses fica realmente bem!

Eu agradeço a preocupação, mas o negro-púrpura não condiz muito bem com a cor dos meus olhos…

Às vezes gostava de saber se eles têm algum critério de selecção para os felizes contemplados, ou se é simplesmente aleatório, abordando aqueles que estavam no sítio errado há hora errada! Penso que seja mais por aí, porque o que eles querem mesmo é ser clementes e zelar pelo estatuto de todas as massas! E o que melhor que a força bruta para demonstrar essa virilidade e supremacias inalcançáveis!

Se calhar até lhes devíamos prestar culto e homenagem, dar-lhes oferendas e comprar-lhes um lugar no céu, entoar rap’s celestiais e profetizar a sua doutrina violenta e agressiva! Oh joy! Tempo de alegria! Punhos cerrados em riste e levemos este mundo adiante!

Cada vez mais tenho a indigesta noção que a vida urbana tende de novo para o Paleolítico à medida que o tempo passa. Cada vez mais há quem opte o caminho da força bruta e do medo para se destacar de alguma forma: “Não estudei, não tenho ética, não contribuo para o desenvolvimento do país, e moro numa casa clandestina, mas sei usar bem o punho, e como tal, mereço o respeito e admiração dos demais!”. Mas nem é preciso pintar um cenário tão marginal e degradante. Quantas e quantas famílias aparentemente felizes, limpas e bem cuidadas não são assombradas por um pai ou outro qualquer membro, que volta e meia quando o Benfica perde, descarrega as suas frustrações desportivas na mulher e filhos. Poderei estar a caricaturar demais, mas de facto, há quem se exalte por coisas tão ou mais insignificantes.
As normas cívicas e politicamente correctas vão lutando em vão por uma sociedade anarquicamente correcta, mas não passa de uma conduta de valores para inglês ver, porque por trás dessa película policromática e harmoniosa, permanece um submundo cinzento em que a lei do mais forte vinga, quase como uma cadeia alimentar, em que o Gangster, O Rei da Selva, acaba muitas vezes por sair ileso.

Qualquer dia temos fogos cerrados em manhãs de domingo, crianças que correm para um coito incerto, numa fuga incessante do próprio medo, golpes de estado, tiros no escuro e no claro, para onde quer que se queira, rasteiras políticas, quedas sociais, campos de batalha urbanos, armamento em saldos e excedentes de decadência, morgues com listas de espera, um lucro partilhado entre o paraíso e o inferno no balanço final do purgatório, e no meio de todas estas agressões quotidianas, fica por saber quem será que nunca vai dar um murro na mesa e dizer que chega.

04/11/2006

Está cá um friooo...Bem!

E porque a minha actividade literária anda de baixa, e consequentemente esta Hortelã.Pimenta meio murcha, venho aqui atirar com um (des)bloqueador de conversa dos mais Clássicos que toda a história da comunicação humana alguma vez conheceu. O mito dos diálogos empenados de trazer por casa. O desentupidor de canalizações verbais. O policia sinaleiro dos congestionamentos nas vias de comunicação. A posta lubrificante deste Blog inerte e moribundo:

Entããão.... Hoje tá cá um briol, hã? Do camander!


... O Tempo! O comentário metereológico surge sempre no seguimento de uns breves segundos de silêncio constrangedor. É inevitável.

Ponho-me aqui a pensar sobre o assunto (sim porque eu penso muito no estado do tempo e em toda a sua essência), e dou voltas e voltas sem conseguir achar uma razão plausível que justifique esta tendência quase genética de comentar o tempo com alguém.

Deve ser porque a outra pessoa tem sensibilidade ocular e apatia térmica, e de facto não consegue chegar às mesmas conclusões geniais que nós. Ou entao deve ser porque dois metros ao lado os ventos vindos de Noroeste já não sopram da mesma maneira!

Não sei, mas sem dúvida alguma que deve ser para acrescentar algo de novo a conversa. Algo que a outra pessoa já não saiba...!


Já te disse que hoje esteve um tempo manhoso?

29/10/2006

The Otherside

Mais um inicio de noite saboroso no Adamastor, passado comigo mesma e com os sons improvisados na curva de um sorriso, a respirar um bocado de Lisboa e do rio para limpar tudo cá dentro.

O sol hoje fez-nos uma visita, num jeito meio trocista, depois dos dias cinzentos que dançaram esta semana toda. Olho o por do sol e penso como é que ele será do outro lado. Pois é. 18 anos a ver o sol todos os dias e nunca lhe vi as costas. Será igual? Será a mesma luz? Será mais feio? Porque é que raramente nos interrogamos sobre aquilo que não conseguimos ver? O campo da imaginação é muito menos nítido… mas aposto que é muito mais bonito do que o físico e visível.

Eu por exemplo, daqui vejo o Cristo Rei de braços abertos para mim, denunciando uma esperança com os seus olhos postos em nós. Já quem vive do outro lado do rio, só lhe vê o rabo!

Às vezes gostava de ver o que não consigo.

Mas vou deixar isso ao critério da minha imaginação desfocada!

26/10/2006

Próxima paragem: Desconhecida

E porque há quem não tenha carta de condução, ou até quem prefira o suave aroma a axila de refogado e a perícia dos carteiristas ao conforto do seu carro, foram feitos, em honra dessa estirpe massiva da sociedade, os autocarros. E é precisamente sobre esse magnífico meio de transporte e todo o habitat que se lhe associa que venho falar. Metro?! Não, isso é coisa de gente fina! Táxi?! Isso então é só mesmo para quem pode! Eu é mais autocarros.

Venho aqui desmistificar, para todos os leitores abastados, a ideia lendária de que andar de autocarro é um hábito sujo, degradante e sem qualquer proveito à excepção do contacto corporal que eu tanto gosto, sim?!

Tudo isso são mentiras! Tudo isso são calúnias! Tudo isso são blasfémias! Resolvi desprender-me de todos os meus preconceitos e estereótipos e descobri que… andar de autocarro pode ser um acto extremamente cultural! Diria erudito mesmo! Senão vejamos:

Num dia fotocopiado de muitos outros, sem nada de novo até à altura a não ser a mensagem de informação ao cliente da Yorn, que eu tanto gosto de receber, apanho o meu 27 e é aí que tudo muda! É a Boa Nova Rodoviária! De rua em praceta, começam a entrar os deputados da assembleia ambulante da 3ª idade. Têm rugas, cabelos brancos ou no hair at all, uns com olhos queridos por trás das lentes garrafais, outros com expressões ameaçadoras e zangadas com a vida ou com a morte que ainda está para chegar (ainda não consegui perceber muito bem), capazes de comer o mundo com as suas próteses dentárias reluzentes.

O clima começa a entrar em ebulição, pego nos meus Malteesers, acomodo-me na minha cadeira da primeira fila, autografada por Anas que amam Joões, and Show Time!

O motorista vai colhendo os passageiros, e os velhinhos, à medida que entram vão-se cumprimentando uns aos outros – os que se conhecem, os que não se conhecem, os que fingem que se conhecem e fazem autênticos malabarismos e ginásticas lexicais e sintácticas para evitar ter de se dirigir à pessoa pelo nome – enfim! Todos são amigos, e todos sabem de todos! Parecem ceitas organizadas, circulação interna de informação, base de dados completa! Às vezes chego mesmo a pensar que até devem existir Clubes de Associados da Carris, com encontros semanais e torneios de Canastra! Penso que alguns devem ser também amigos de Grupos Turísticos da viagem diária com partida em Santa Apolónia Às 17.00h. São reformados, têm tempo livre e solidão, um passe Lisboa Viva, e aproveitam (e muito bem) para conhecer a cidade. Existe melhor forma de conhecer Lisboa que no conforto de um Volvo com motorista, com ambientador humano de catinga do bosque e ar condicionado das respirações engripadas dos passageiros? Aposto que não!

Essas jornadas turísticas explicariam o facto de todos os velhinhos saberem os nomes de todas as ruas num raio de 15 Km e respectivos códigos postais, que nem um GPS orgânico topo de gama! Já eu, nem sei onde fica a Almirante Reis.

Acho especial piada às conversas corriqueiras das senhoras. Cumprimentam-se formalmente (é raro o contacto físico), e em vez do comum “Está boazinha?”, NÃO! Sai antes um benevolente, piedoso e mártir “Está melhorzinha?”… Mas é genérico! Podem até conhecer-se apenas da carreira anterior, podem nem saber nada de nada da pessoa, mas partem sempre do pressuposto que por detrás daquela simpatia toda estará algures escondida uma qualquer patologia maldosa, esfregando as mãos de crueldade, por mais que a pessoa venda saúde!
Mas também, frequentemente respondem à pergunta confirmando todas as dúvidas, disparando um rol imenso de doenças e dores, quais sofredoras pagando pelos seus pecados de uma vida! E pronto, desatam ali numa desgarrada de maleitas, competindo pelo lugar de moribundo como se de um leilão se tratasse. É o “quem dá mais” da Epidemiologia!

Seguidamente, perguntam pela família, o que inclui gatos, periquitos e todo o tipo de animais de companhia. Fazem outra competição, mas agora de fotografias dos filhos, netos, bisnetos e toda a linhagem descendente, que recheiam as suas carteiras de pele rechonchudas. Basta analisar-lhes o olhar babado e reconfortado de quem tem a certeza que trouxe algo de bom ao mundo, e isso basta-lhes a eles, e é razão mais que suficiente para viverem os últimos anos da sua vida, por mais difíceis que sejam. Contam histórias, o casamento dos netos, as traquinices de outros, e vivem essas memórias como se lhes trouxessem um bocadinho de juventude emprestada. Confiam as histórias e as vidas a pessoas que conhecem ali do banco da frente do autocarro, como se fossem amigos de longa data, quiçá da sua infância muito longínqua.
Trocam umas quantas ideias e uns quantos comentários sobre os programas matinais da televisão, sobre os dinheiros que gastam a tentar ligar para o Goucha no Você na TV. E acusa-me a minha mãe das meras horas ao telefone com a Sofia! Se tivesse horário de tarde é que ela ia ver! Corria tudo o que era programa! Desde o Sic 10 Horas à Oprah (sim, chamadas internacionais)! Ninguém me parava, ui!
Mas os velhinhos queridos também têm o seu quê de má-língua, que eu bem as oiço criticar as personagens das novelas, e a conspirar maldades na eventualidade de se cruzarem com elas na rua. São ferozes, as senhoras!

Outra coisa que eu admiro é a perícia dos avôzinhos com o equilíbrio nas curvas atribuladas da viagem. A minha imagem de velhice inclui um esqueleto frágil prestes a desmoronar-se que nem um castelo de cartas. Mas eles não! Eles desafiam toda a morfologia humana, e gozam com a força centrifuga e com a inércia, e mantêm-se hirtos às maiores oscilações. Parece que eles e o autocarro são um todo coeso. E eu, com uma bifurcação voo para o colo de alguém desafiando apenas a lei da gravidade.

E tudo vai nesta amena cavaqueira, apreciando mais uma viagem metropolitana, com os seus colegas que tratam pelos nomes com um Sr. ou uma Dona antes, mas que de facto devem ter todos mais ou menos a mesma idade! Eu não me imagino a tratar os meus amigos por Dona Legos, ou Sr. Mikie, muito menos a trata-los por você e a dizer: “Dona Legos, importa-se de me passar a tira de bordado inglês, por favor?”

Subitamente, começa a cheirar a medo no ar! O ar do autocarro até pode cheirar a muita coisa, mas o cheiro a medo quando cheira, cheira muito mais do que os outros!
A silhueta esférica da Dona Ermelinda já se vislumbra ao longe na paragem, por detrás de uma névoa sinistra, fitando o autocarro como o seu olhar de lince. Velhinhos tremem mais que o normal, uma coisa assim entre a gelatina e um ataque de hipotermia, oiço outros engolirem em seco, e o Sr. Mateus inclusive engasga-se com o canino. Há burburinho na camioneta e um suspense sofucante. Toda a gente a conhece, é um autêntico ícone social! Quem dera à Cinha Jardim ter metade do reconhecimento que a Dona Ermelinda tem, das suas viagens da Carris!

Ela entra, já resmungando entre dentes com o tempo, e reclamando com o Serviço de Informação Meteorológica repetindo: “Eu sabia que não devia ligar àquelas coisas que dizem na televisão! As minhas dores das articulações é que sabem quando o tempo vai mudar, eu sabia!”. Estes pormenores levam-me a pensar que se calhar as capacidades paranormais tendem a surgir com a idade, tipo bênção, conforme a pessoa que se foi ao longo da vida, ou assim… Vou portar-me bem, para chegar a velha e ler a mente, e ganhar todos os torneios de Canastra!

A Dona Ermelinda, depois de maldizer do tempo a torto e a direito, como se não estivesse satisfeita, começa logo a disputar por um lugar sentada, com uma qualquer velhinha que seja menos velha que ela! Às vezes mete-se com umas que são osso duro de roer (a juntar às próteses dentárias…) e quase desatam ali numa luta greco-romana, arrancando perucas e capachinhos, de bengala em riste, quais cabecilhas de guerra! Há dias em que eu, quando vejo mais que X rugas por metro quadrado, já nem me sento, não vá alguma senhora rogar-me pragas até ao fim dos meus dias, e eu ainda tenho uma esperança de vida confortável, e assim também evito ouvir mais um sermão sobre juventude perdida, que eles tanto gostam de declamar!

Depois de enxovalhar a Dona Alice, continua num monólogo revoltado, criticando os mais variados temas lá do alto dos seus 72 anos e do seu metro e cinquenta. Opina sobre tudo um pouco: política, economia, juventude… Enfim! Uma lista colossal de chatices! Sim, porque a conclusão final, é que é tudo uma chatice, e no seu tempo, era tudo muito mais bonito, as pessoas eram boas e nascia dinheiro das árvores! E, de repente, começa a interagir com os outros velhinhos, cada um opinando à sua maneira, cada um por seu caminho, e cria-se ali um debate aceso de significativo valor cultural! Referendos, discussões, perdigotos! O sossego daquela viagem morre afogado!
Têm as crenças vincadas nas rugas, já não há forma de as demover! Gera-se ali um Revolução Civil, o autocarro leva nele a Revolta do Cravos, na voz dos passageiros. A Dona Ermelinda é uma das Capitãs de Abril, e o motorista, coitado, é o refém.

Mas no fim de todo aquele fogo cerrado de opiniões distintas, acabam sempre todos por chegar a consenso, a um ideal comum, de que antigamente é que era, e agora tudo está mau, e a culpa é do sistema! Todos ficam amigos no fim, e a Dona Ermelinda e a Dona Alice já partilham fotografias da carteira. Aposto que grande parte das ideias que constituem o senso comum, nascem ali, nos bancos de trás do 27, com parteiras à moda antiga!

E assim vai decorrendo a viagem, que ao longo do tempo vai perdendo intervenientes, descarregados e salpicados, uns umas paragens antes, outros mais à frente…enfim, no devido lugar, quando é chegada a sua hora.
Mas confesso que a viagem no fim, quando já só restam mais uns sem destino como eu, perde toda a piada e fica muito mais incompleta.

Eu admiro-os. De que forma forem, com os mais variados feitos, admiro-os! Quer seja pelas suas personalidades vincadas com opiniões de ferro, quer pela enorme confiança que depositam em todos, partilhando as suas histórias de vidas reais com desconhecidos de uma forma genuína, porque a palavra não faz mal e a conversa cada vez faz mais falta. Quer por defenderem as suas ideias sem medo - porque quem enfrenta a morte mais de perto, não teme mais nada - , ou quer pelo simples facto de que a vida já passou quase toda por eles (ou eles já passaram quase todos pela vida) e guardam neles mais de 70 anos de imagens e respirações, que eu espero um dia vir a guardar. Ou seja, admiro-os porque existem, porque fazem falta, e porque me mostram o meu futuro e o de todos sem pedir nada em troca, apenas um sorriso, uma mão de ajuda para levantar, ou um lugar sentado no autocarro. São uma peça do puzzle comunitário, que é imprescindível como todas as outras para o acabar. Afinal, sem um fim, para que serviria começar?

Bem, é aqui que eu fico, Sr. Motorista! Boa tarde, e até amanhã!

22/10/2006

Outubro.Outono.Cinzento.

É 22 de Outubro. É Outono. É cinzento. São 5 p.m. dum domingo qualquer como todos os outros, iguais e repetidos no metrónomo dos meses e dos anos, marcando o fim de uma semana ou o início de outra, como quiseres! Varia conforme o teu estado de espírito e a fome que tens ou não de tempo. O Sócrates por exemplo deve vê-los como o fim de uma semana, pode ser que lhe dê a ilusão optimista que já cumpriu mais uma semana de governo exemplar cheia de exemplos em branco, e isso lhe alimente o seu espírito ambicioso por um Portugal melhor e uma conta bancária Excelente. Já eu por exemplo, dou comigo às vezes a consumir domingos com um apetite voraz, quando alguma data aliciante espera por mim sentada no quadradinho do seu calendário. E volta e meia, à conta desta minha gula cronológica, engasgo-me nos domingos e nas quartas-feiras, tropeço nas terças e engulo as quintas sem mastigar, trocando a digestão toda e a agenda também. Basicamente a minha falta de organização explica-se pelo sabor do tempo e a minha enorme gulodice.

Este domingo de hoje acordou zangado e de mal com o mundo. Está com má cara! E com mau tempo também! Não há luz! Parece que se fechou num quarto escuro a chorar sobre as suas mágoas! Os meus sentimentos… Nada que uma caixa de chocolates e uma sessão intensiva de Dr. Phill não resolvam!

Sento-me na cadeira em frente à secretária, em posições que desafiam a morfologia humana e surpreendem-me com a minha flexibilidade desconhecida, e vou olhando pela janela a ver se chove. Literalmente. E chove! O domingo está com um ar ameaçador hoje! Ventos ciclónicos, árvores empurradas umas contra as outras, gotas de água suicidas, folhas pára-quedistas, carros que abanam como se as joaninhas da Peugeot dançassem samba lá dentro, dilúvios de proporções celestiais, trovoadas ensurdecedoras que até o nosso coração e pulmões ouvem, como se a terra estivesse com fome ou como se os deuses se irritassem lá em cima e se insultassem divinamente, relâmpagos hipnotizantes como se o céu nos tivesse a tirar fotografias, e um filtro cinzento que torna tudo mais escuro.

Fico parada e estática a olhar o temporal, como se estivesse a ver o Orlando Bloom à minha frente. Nunca soube explicar muito bem a sensação que tenho quando olho a chuva lá fora. É um misto de segurança e desconforto, de bonito e feio, de bom e de mau. É como um vício. Prende-me de uma forma instintiva. Não conheço nenhum nome para essa sensação. Se me perguntarem o que sinto ao ver uma tempestade, respondo que sinto chuva. É capaz de servir a definição. Gosto do cheiro a terra molhada e do cheiro a frio, gosto de a ver cair lá fora, mas apenas porque estou cá dentro e isso me dá uma sensação estúpida de segurança, como se a chuva magoasse. Isso faz-me sentir uma medricas patética.

E fico assim, a ver o domingo passar, os chapéus de chuva a virarem-se do avesso, pondo em causa a sua utilidade, as manadas oportunistas de “qué-frô” sedentos de negócio fácil e conveniente com molhos não de rosas mas de guarda-chuvas a dois euros, as calças molhadas até aos joelhos, os cabelos das senhoras feitos ninho de rato. Fico assim sentada a ver Outubro, a ver Outono, a ver cinzento.

07/10/2006

Silêncio

:


























(...)

O que queres ser quando fores grande?

O que é que gostavas de ser quando fores grande?
Aviador e tu?
Não sei.

Engraçado como os putos, pirralhos de palmo e meio, às vezes conseguem ser mais decididos e mais seguros de si mesmos do que nós, projectos de adultos, formados em matemáticas, letras e tretas.

Engraçado como os putos, sem saberem nada, sabem sem querer o que são e o que gostam, o que querem e o que não querem, ter 2 namoradas com o consentimento de ambas, isto é de mestre! Já nós, pseudo-sábios com uma experiência de vida imensa, que nem um Dalai Lama ocidental, andamos à espera da ajuda do público para escolher o que está atrás da porta 1, 2 ou 3, porque não conseguimos decidir por nós próprios. E depois, volta e meia a plateia manda uma ao poste, e lá nos sai um vale no valor de 200€ em gomas e sortidos na Doçaria Santos & Santos. Aposto que os putos, acertavam à primeira e iam todos felizes para casa com os seus sonhos muito mais modestos do que os nossos.

Engraçado também, como para os putos, tudo se resume a uma simplicidade única e naturalmente óbvia, e não precisam de grandes filosofias para viverem o dia a dia com um sorriso na cara. Quais teorias da relatividade, quais conotações e sentidos dúbios. Para eles um sim é um sim, um não é um não. Para eles um não, não é um está-na-eminência-entre-um-sim-e-um-não-mas-em-caso-de-dúvida-negue-sempre.

Basicamente, os putos têm muito mais graça que nós. Graça e atitude, e arrisco-me a afirmar que essas duas razões estão praticamente em proporcionalidade inversa com a idade… quanto mais velhos, menos engraçados e mais parvos. Lindo… acho que só voltamos a recuperar quando ficamos idosos, sábios e experientes e inválidos, e quando a vida já passou por nós e nos deitou a língua de fora! Lanço-vos um desafio: tentem responder na mesma moeda nessa altura sem escorrer um fio de baba e sem ter problemas técnicos relativos à prótese dentária! Está a valer uma embalagem de Viagra!

À medida que crescemos vamos ficando mais pequenos… Paradoxal e controverso, dito assim de uma só vez até corro o risco de chocar os idealistas mais conservadores e os pais de família. Peço desculpa a pouca sensibilidade e este meu jeito salpicadamente rude, mas o meu lado de criança de temps en temps manifesta-se e digo coisas assim sem lógica alguma e completamente descabidas aos olhares maduros e adultos de quem tem medo da opinião alheia, como a minha irmã do papão. Eu digo que ficamos mais pequenos, porque a nossa essência cai na tentação de se aprisionar, não vá ela pisar a linha do socialmente aceitável, e que ninguém ouse importunar sua malvadeza!

Mas não me julguem uma marginal e deslocada, idealista e revoltada que critica o modelo social actual. É a realidade actual, a ervilha em que vivemos. Regemo-nos pelas referências que a sociedade nos dá, crescemos nos meios em que sociedade nos acolhe, aprendemos a ser aquilo que a sociedade é. É um instinto animal de assimilação. Eu por exemplo nunca vi elefantes pendurados em árvores nem koalas tocarem o sino. Uns mais que outros absorvemos os padrões e adaptamo-nos. Não que isso seja totalmente mau, mas cabe-nos a nós interpretar e filtrar segundo a nossa maneira de ser aquilo que recebemos dos outros, e decidir o que ser ou não, mas sem que isso vá contra os nossos princípios básicos. Temos de ser um bocadinho aquilo que somos, a massa do nosso bolo mármore, e não o que gostaríamos que os outros vissem em nós. Eu por exemplo adorava ser vegetariana. O problema é que eu odeio vegetais…

19/09/2006

Para voismecêzes, com carinho e chocolate quente!

Para além da minha almofada e dos meus sapatos, outra coisa da máxima importância para mim e sem a qual seria bem mais díficil viver, e que não me posso esquecer de referir são os amigos. Pode soar um bocado cliché, afinal toda a gente diz que não consegue viver sem eles, mas acho que a questão é que a necessidade de ter amigos é uma coisa quase genética, biológica ou assim. O Homem, tal como outros animais, precisa de se relacionar com os da mesma espécie.
Por isso, achei por bem dedicar algumas linhas a esses compinchas e camaradas com C's grandes, isto é, aos verdadeiros amigos!

Que poético =')

Vou reforçar:

Tu! Que te ris na minha cara.
Tu! Que me apontas o que mais ninguém repara.
Tu! Que ficas com coisas que são minhas.
Tu! Que me dás calduços e belinhas.
Tu! Que me dizes o que eu não quero ouvir.
Tu! Que já me deixaste cair.
Tu! Que me lançaste a corda para subir.
Tu! Que não me deixaste desistir.
Tu! Que me irritas todos os dias.
Tu! Que ás vezes até me agonias. ( ...!)
Tu! Que falas do que mais ninguém pensa.
Tu! Que entraste aqui sem pedir licença.
Tu! Que me roubaste uma parte de mim.
Sim, Tu! Quem é que te mandou ser assim?
Tu! Que extingues os meus dias tristes...
Epa... Tu... que existes.


And the Oscar for the worst Drama Poetry goes to...